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domingo, 22 de novembro de 2009

Carta a um amigo


Querido amigo:

compreendo as tuas inquietações sobre o devir da humanidade. Com certeza são as mesmas que as minhas. Provavelmente no íntimo desenvolver-se do quotidiano muitas pessoas se ponham essas mesmas questões que tu tens. Como agir? Que fazer?. Há uma estranha inércia dos tempos, por vezes parece que ninguém tem interesse em nada, que tudo é um ir cobrindo aparências, à espera do seguinte protocolo burocrático, como se a vida fosse simplesmente uma cousa atrás da outra. Mas que resposta posso dar-te? Não tenho nenhuma. Na realidade não tenho uma ideologia qualquer, não sou galeguista nem nacionalista nem iberista nem europeísta. Não posso entusiasmar-me com as "novas" políticas e não acredito que os jornais me tragam a "Boa Nova". Considero isso (as diferentes etiquetas ideológicas) falsos problemas que me evadem do meu plano de imanência. Devemos ser realistas com relação ao nosso lugar no mundo. Sou uma pessoa normal, que dá aulas de secundária de algo pouco prático (filosofia) e tenho uma família com a que procuro conviver em harmonia. Tenho interesses culturais e humanos de autoformação, procuro desenvolver o meu civismo dentro de uns limites comuns e não destaco por nada especial. A máxima incidência pública são blogues entre amigos. De maneira que a questão sobre projectos e planos de futuro de carácter global são grandes demais para mim. Vou vivendo, simplesmente. Acredito que a riqueza que posso compartir com outras pessoas é este ir vivendo sob a consciência tácita de uns valores essencias que eu chamo de Tradição. É uma preocupação muito pragmâtica que não me permite envolver-me em Ideais porque tento aprender diariamente a ser um ser humano no contato diário com outros seres humanos: e isto é muito mais importante e provavelmente marcante que teorizar sobre grandes planos. Digo isto com todas as limitações inerentes a uma afirmação deste tipo.
Se conservamos o nosso ideal interno na nossa imanência poderemos fazer realmente boas cousas, tal e como o homem verdadeiro dos taoístas. Significa um saber fazer sem grandes planos, ligado ao desfrute dos acontecimentos e dos encontros. São os políticos, intelectuais, etc. os que carregam com o peso de "representar" a outros. Considero que a única política verdadeira está em apresentarmo-nos como seres humanos desde a nossa experiência real, não imaginada ou desejada. Conheci um velho mestre (Omar Ali Shah) que punha o exemplo da "gota de azeite". Sobre um papel pomos diversas gotas cá e lá. Depois de um tempo o papel absorve o azeite que se vai extendendo até entrar em contato. Não há luta pelo controle, há um desenvolvimento progressivo e harmónico. Em vinte anos as mudanças podem ser decisivas e quase não teremos reparado nisso, como ver a nossa fotografia de um tempo atrás. É o que se conhece no sufismo como "técnicas do tingido". Por isso é tão diferente a sabedoria oriental e tão necessária hoje. Nós podemos construir isso mas não é preciso lutar contra nada, simplesmnete temos que nos esforçar em experimentar e aprender de maneira que o "sentido comum" se torne algo concreto e efectivo. De súbito compreendemos que ver com claridade só nos obriga a ter um pouco de esse tão denostado sentido comum. Devemos deixar de ser heróis, esforçados prometeus. Esse tempo já passou.Não há melhor exemplo que a experiência budista neste sentido, não tenho a menor dúvida. Provavelmente a experiência civilizadora mais impressionante da história humana.
Ressumiria dizendo: deixemos de fazer planos, vivamos incrementando as nossas possibilidades, as nossas experiências mas abandonemos toda ideia de controle e dirigismo: na verdade não podemos controlar nem dirigir nada.

Só um poema final dos índios da pampa argentina:


Nuestra llanura.

Esta es, hermanos, nuestra tierra ancha
donde nada se detiene, donde todo pasa,
y el viento no duerme y el horizonte anda

Esta es, hermanos, nuestra tierra ancha,
vivimos en toldos. Cuando el tiempo cambia,
cambiamos los toldos. Así es nuestra vida.

Esta es, hermanos, nuestra tierra pampa
No es tierra estrecha, la tierra es bien ancha.
Por mucha que quieran a todos alcanza.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crenças


Contrariamente ao que se pensa as religiões não são algo fixo, estabelecido e dogmático. Quer dizer, podem usurpar essa função mas, com que direito?. Sempre me surprendeu a maneira em que Ocidente cedeu terreno perante o direito eclesial e romano. Não se trata de ser isto ou aquilo mas de pensar o seguinte:



Qual é a legitimidade de este ou de aquele para dizer que eles são os únicos representantes de tal ou qual religião?



Por outro lado, que é relamente a religião?. Porquê aceitar uma determinada visão?. Em que medida todos somos responsáveis da nossa tradição e não podemos desentender-nos dela?

De maneira que, por exemplo, porquê rejeitar ou aceitar algo sem termo-nos posto a questão prévia de uma verdadeira investigação? Se Muhammad dizia que o Corão tinha sete níveis diferentes de significação segundo o desenvolvimento da pessoa, que quer dizer com isso?



E se, por exemplo, a tradição budista acredita na reencarnação, que significam estes versos de Nagarjuna, um dos mais prominentes budistas da tradição Mahayana:



Supõe-se que a pessoa se reencarna

Mas quando um procura essa pessoa

Não pode encontrá-la, nem nos seus cinco agregados

nem no âmbito dos sentidos, nem dos elementos

Então, quem é o que se reencarna?



Damos por feitas as cousas como se estas tivessem uma identidade estável, de uma vez por todas. Que interessante que estas mesmas considerações as possamos encontra em Spinoza, Hume ou Nietzsche.



Somos o que comemos


(Provérbio)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diferença e normalização

Roda do Dharma

O pensamento e a estrutura essencial da filosofia autêntica é unitiva mas dentro de um paradoxo. É uma unidade da experiência e da essência, não da forma. A tentativa de construir analogias, de fazer que as cousas se pareçam e se identifiquem é uma tendência humana compreensível mas é também uma forma de limitar a compreensão

É uma tendência humana estabelecer etiquetas e homologias. Para algumas pessoas não ter algo classificado ou situado é todo um problema em si mesmo.

Existe a ideia de que a comunicação se produze homogeneizando mais. De esta maneira para muitos "as minorias" são um "problema". Se só tivermos uma língua a comunicação seria mais fácil, pensam alguns. O que não pensam é que tipo de incomunicação foi necessária para produzir a imposição de uma única língua.

Tudo isto está relacionado com o processo normalizador do mundo moderno. Normalizar é reduzir a estruturas mensuráveis e homogêneas a diversidade intrínsica do real. Existe uma ilusão de totalidade e universalismo abstracto que literalmente exclui, elimina e cega às pessoas obrigando-as a ter como princípios absolutos umas bases economicistas e predatórias. O roubo e o assassinato são, desde esta perspectiva, uma solução.

Em todo o caso a realidade é a que é e não a que gostariamos que fosse, com toda a sua diversidade e com todos os seu direitos inerentes. E por mais que alguns, ainda que sejam muitos, se empenhem em dizer como são as cousas, as cousas simplesmente são sem conotações e valores.

Sempre pergunto aos meus alunos, em algum momento, qual é o sentido de jogar limpo num jogo. Que se ganha e que se perde se o não fizermos.

A pergunta tem miga. É necessário saber de economia, o básico.


Em última instância a ética é uma lógica pura. Como disse um mestre tibetano que conheci:


- Chegamos à iluminação por pura lógica.


- E o amor, a compaixão, e tudo isso- perguntou alguém


- Oh!, isso é a lógica mais estrita e pura.


E Sócrates não pensava diferente.



quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Intenção e acontecimento.

Carl Emile Mucke

O Princípio de Incerteza de Heisenberg não deixa de ser uma fonte de inspiração filosófica. A ideia de que a energia que suministramos a um sistema modifica o estado do mesmo e que pelo tanto não o podemos conhecer de maneira objectiva sempre me lembra uma frase de Kant no início da sua Antropologia, que cito de memória:


"O problema de estudar o ser humano é que este modifica a sua conduta desde o momento em que sabe que está sendo observado"

Isto tem aplicações também no facto da auto-observação, que é problemâtico.


Poderiamos dizer que há algo subtil chamado intenção e que, como no caso da luz, parece conhecer con anterioridade se a sua manifestação deve ser ondulatoria ou corpuscular.


Isto relaciona-se com a maneira de transmitir o conhecimento essencial que não segue um processo linear. O mestre fala de cebolas ou põe exemplos onde se fala de cores, mas então muda e passa a falar do gato de Nasrudin e tudo dentro de um discurso simples e facilmente compreensível num sentido superficial. Há pausas, gestos. Sucedem-se perguntas e respostas que parecem seguir um sentido convencional mas há toda uma série de acontecimentos que seguem um afinamento que depende da energia do contexto. As cousas realmente acontecem por algo. A ideia da casualidade é aqui supersticiosa. Há realmente uma causalidade funcionando num nível mais profundo e multidimensional do que parece.


Este é o motivo de que um livro possa ter outras funcionalidades que não resultem óbvias. Ou um objecto ou uma frase. Ou um comportamento. É como se falássemos para os presentes e para os ausentes, para o que há e para o que pode haver. Ás vezes sentimos que simplesmente temos que fazê-lo. Haverá um efeito em algum lugar. Assim o sentimos. Devemos actuar, sem poder explicar demasiado. De aí a importáncia de não fazer juízos precipitados.

Sobre o experimento de Robert G. Jahn clickar aqui:








"Se nós deixarmos de dançar o sol deixará de sair pelo horizonte", dizem algumas tribos. E dizem a verdade.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Transferência


Algumas vezes tenho ouvido a crítica que põe o facto de não ser necessário buscar o conhecimento em fontes orientais. Que a riqueza do pensamento e da tradição ocidental é suficiente por si mesma. Isto deve-se a que não falamos das mesmas cousas e dos mesmos significados. Quando com vinte e três ou vinte e quatro anos comecei a compreender que Nietzsche, Spinoza, Heidegger ou Kant não eram completos não o pensava só desde a perspectiva teorética. Era a sensação vital e existencial de que essas pessoas não eram realizadas. Em certo modo viviam de ideais. Poderia dizer-se que a eiva do pensamento ocidental é o seu idealismo.

Paralelamente a isso pode ver-se como se trata de um experimentalismo carente de sabedoria: toda a psicologia desde Freud em adiante mostra-o claramente. A psicanálise carrega um sentimento de culpabilidade e uma linguagem nefasta para o ser humano. Por um lado dá mas por outro tira. Se analisarmos a figura de Freud vemos como se transfire toda uma psicologia da perda e da culpa aos seus seguidores. Há dogmatismo, irracionalismo e obcecação com o tema sexual. Há sofrimento gratuíto. Há também ignorância sobre o ser humano.

Estas são afirmações fortes mas sei do que falo. O certo é que não se pode improvisar uma tradição nem descobri-la através do esforço e a heroicidade do século XIX e XX. O homem existe desde muito antes e não foi inventado pela revolução científica moderna ainda que, às vezes, pareça pretendê-lo.

A sensação que eu tinha é que essas pessoas andavam buscando mas ainda não encontraram. Comprometiam a outros e negavam as possibilidades que outros mais sábios lhes podessem oferecer na abertura de um caminho para a realização. Muitos só queriam defender as suas teorias contra outras teorias. Reconheciam a sua ignorância para a continuação comportar-se e dogmatizar sobre o divino e humano como se fossem deuses. Existia e existe uma inconsciência nefasta dos próprios limites. Sempre falam dos problemas que solucionam mas não dos que causam. É a mesma história que se nos falam da civilização ocidental mostrando-nos o Parlamento inglês e a Ilustração e obviando o colonialismo, o capitalismo e os massacres e genocídios do S.XX.

Mas o surpreendente é que esta crítica é assumida por muitos ocidentais para criar um malestar ou uma consciência de culpa sem assumir mais nada. Por exemplo, aceitar que os outros podem ter algo que ensinar também. Que não são só uns coitados e umas vítimas. Que podem ter um valor superior. Sim, a palavra própria é superior.

O conhecimento que é superior é aquele que dá razão autêntica da existência humana e tem os seus próprios profissionais como qualquer cousa na vida. Se das bases estabelecidas no S.XVII para o estudo da natureza se chega à bomba atómica, das bases estabelecidas muito antes sobre o mêtodo e a sabedoria se chega ao verdadeiro ser humano. Isto está plasmado de jeito ininterrumpido até a actualidade no Oriente. E se agora se encontra em Ocidente é justo reconhecer esta dívida com equidade.

Eu tenho uma frase sobre a maneira em que se podem assumir "as sabedorias" de todos os lugares e tempos para a construção de algo que é tão antigo como o ser humano.


"Se leste a Nietzsche e chegaste à Tradição essencial, então realmente leste a Nietzsche
se leste a Nietzsche e es nietzscheano só te estás justificando"

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cousas curiosas

Parece que no povo Ianomami há uma forte violência sobre as mulheres. O curioso é que elas consideram que se um homem não lhes bate é porque não gosta dela. É um comportamento que nos resulta chocante quando o vemos numa sociedade primitiva.
O certo é que a vulgaridade de muitas relações mede-se por este modo chocante de extorsão, simulação, chantagem e violência emocional que procura fixar a atenção continuamente sobre si.

Muitas pessoas chegam a se ofender se são tratadas bem, com educação e respeito, mantendo certas distâncias devidas à necessidade de não precipitar ou invadir a intimidade de alguém com um abuso de confiança.

É sobre esta base emocional que resulta fácil para muitas pessoas ceder boa parte da sua autonomia pessoal em favor de outros que lhes ofereçam essa estimação que realmente não necessitam, como no caso das mulheres Ianomani.

Realmente o nosso primitivismo é mais fácil vê-lo nas tribos do que aqui mas não significa que não exista.

(Se tu es uma mulher de quem são os bigodes?, diz o provérbio mongol)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ter razão e saber ter razão.


Todos os problemas dos seres humanos poderiam reduzir-se a esta frase:


"Não se trata só de que tenhas razão mas deves saber tê-la"


Mas a imensa maioria das pessoas conforma-se simplesmente com ter a razão sobre temas, ideias ou acções. Isto dá-lhes legitimidade para "lutar por elas", reivindicar, extorsionar, etc. sem saber como a razão deve ser realmente exposta e defendida.

Pode parecer trivial o que digo mas é uma constatação diária, em todos os níveis da vida. Por isso gosto de essa frase de um antigo sábio:

"O sufi não reivindica, conhece o segredo do significado"

Isto é no caso em que as pessoas têm razão, que não é o maioritario. Fica o caso em que nem têm razão nem sabem ter o que não têm.

E há um caso ainda por considerar: o das pessoas que não têm razão mas sabem tê-la e também não tê-la.

Realmente essas pessoas sabem.

Para ressumir diriamos que as nossas razões são tão próprias que carece de sentido expó-las e sempre temos aquele aforismo dos taoístas:

"Instrumento correcto com homem incorrecto resultado incorrecto mas instrumento incorrecto com homem correcto resultado correcto"


Mas quando compreenderá o homem incorrecto isto?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cabeças, cordeiros e mestres.


Hoje só duas pequenas meditações. Uma procede de uma dedicatória do meu querido Idries Shah. Ele tem um livro intitulado Contos dos derviches que diz assim:


"Aos meus mestres,
que tomaram o que foi dado
que deram o que não podia ser tomado"


Considero-a uma das melhores dedicatórias que li jamais.

A segunda história procede do profeta Muhammad, que repartia um cordeiro junto à sua filha Fátima. Ela numa certa altura reparou que o cordeiro estava a se acabar e disse-lhe:


- Não temos mais que a cabeça.


Muhammad respondeu:


- Temos tudo menos a cabeça.


(O aspirante a discípulo dirigiu-se ao mestre e foi o mestre quem pediu perdão)

domingo, 20 de setembro de 2009

Intelectual


Existe uma hadice do profeta Muhammad que diz:


"A tinta dos sábios é mais sagrada que o sangue dos mártires"


Muhammad compreendeu muito bem o ressentimento encoberto que existe nas acusações contra a intelectualidade. Certamente muitas pessoas, algo cabeças duras, utilizam palavras como "prática" e "experiência" como formas de fugir da necessária reflexão que todo homem ou mulher com aspirações superiores necessariamente deve fazer. Os grandes mestres da tradição humana essencial não foram precissamente cabeças duras: Buda, Sócrates, Platão, Muhammad, Al-Ghazali, Ibn Arabi ou Suhrawardi entre muitissimos outros fizeram um esforço, também intelectual, considerável.

Outra cousa é a razão não intelectual ou os "intelectuais". Aqui vemos a degradação do sentido originário de uma palavra e o uso sofístico e baixo do racionalismo vulgar, que não é capaz de fazer mais do que uma emulação aparente do verdadeiro sentido, sentido que existe ali onde a cabeça descansa no coração.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Paradoxo


Hoje pensava no paradoxo que há entre o sentimento da nossa importância em relação aos diversos projectos nos que nos vemos inseridos e o efeito real sobre eles que penso é inversamente proporcional. Todos conhecemos pessoas que se sentem imprescindíveis em qualquer actividade. Actuam come se na sua ausência tudo fosse ir à catastrofe e, na verdade, quando estas pessoas deixam "essse lugar" as cousas continuam a funcionar como sempre ou pode que, depois de um reajuste, melhor.
Tenho visto funcionar isto com frequência, começando por mim mesmo, e acontece muito nas empresas onde as pessoas devem alimentar uma falsa sensação de importância e uma motivação centrada sobretudo em sentir-se imprescindíveis. Depois são reformados e "la vida sigue igual". Em certo sentido actuamos como o Padrinho, pequenos Corleones do dia a dia. Em tudo há graus, naturalmente.
Quando nos libertamos de esse sentimento de "excessiva responsabilidade" a vida segue igual mas nós somos diferentes e podemos desfrutar sabendo que, felizmente, tudo irá bem sem nós e...porém nós estamos aí.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Identidade e pertença: uma confissão secreta.


Já tenho comentado aqui o desinteresse que tenho por preservar uma suposta tradição cultural galega, espanhola ou qualquer outra. Penso que os problemas que todas as culturas humanas tentam resolver é o da identidade humana, com maior ou menor fortuna. Esta identidade humana, que vem a significar que o homem deve ser igual a si mesmo, pode resultar uma quimera quando se interpõe preconceitos culturais que tentam promover uma determinada etnia, religião ou ideias políticas. Todas estas formas o que querem são quotas de poder ou bem promover discussões bizantinas e intermináveis. Enfim, cada quem ao seu negócio.

Há muitos anos Lluis Vicente Aracil ofereceu-me duas pistas sobre o que eram duas actitudes vitais fundamentais: a casa e o cárcere. E como os discursos, as intenções, os estilos, a vida mesma tendia a organizar-se desde estas duas experiências básicas. Não me explicou muito mais, só me disse que pensasse como se controlavam as entradas e as saídas numa e noutra. Era tudo. Pensei nisso muito e muito. Eu era muito novo e tive sorte de conhecer a Aracil nessa idade em que tudo se absorve. Guardarei uma gratidão imensa para com ele toda a minha vida. E isso fez-me afastar dos nacionalismos e outras seitas similares "a fume de caroço".

Amo muitas cousas da minha cultura galega e espanhola mas não tenho sentimentos de propriedade nem de representatividade. Não pretendo "salvar" cultura nenhuma nem lutar contra os "malvados" e outras bestas negras que supostamente são causantes dos males que muitos se arriscam a diagnosticar. Não, francamente sou pouco combativo nesse sentido. De maneira que os autênticos malvados podem pôr-se a tremer. E com toda a sinceridade o digo, aqui não há brincadeira nenhuma.

Presumir disto e daquilo avergonha um pouco, mesmo que seja mantido como um segredo do coração. Não pensáis, amigos?

Entretanto, amigo, sorri.

Smile though your heart is aching/Smile even though its breaking/When there are clouds in the sky, youll get by/If you smile through your fear and sorrow/Smile and maybe tomorrow/Youll see the sun come shining through for you//Light up your face with gladness/Hide every trace of sadness/Although a tear may be ever so near/Thats the time you must keep on trying/Smile, whats the use of crying?/Youll find that life is still worthwhile/If you just smile//Thats the time you must keep on trying/Smile, whats the use of crying?/Youll find that life is still worthwhile/If you just smile.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Elitismo



Se nos pormos a questão do que significa qualquer tipo de estudo ou aprimoramento veremos que necessariamente se produz uma iniciação progressiva que nos vai afastando da nossa compreensão básica até modos mais complexos e técnicos que nem podiamos imaginar de início. Acontece em tudo. Podemos imaginar que as matemáticas só são um pouco de geometria e álgebra até que vamos descobrindo relamente o que são. O mesmo podemos ver em todas as actividades humanas, desde a biologia até a física passando pela engenharia, a literatura ou a pintura. Esta é uma das insistências de Sócrates nos diálogos platónicos. Todos os saberes conduzem a aqueles que os praticam a serem expertos naquilo ao que se dedicam com maior ou menor fortuna. Não pedimos a qualquer pessoa que nos arranje uns sapatos ou vamos descuidados confiar as nossas mercadorias a um navegante de duvidosa reputação. É tudo assim nas artes e ofícios de diferente tipo excepto naquilo que é mais essencial para o homem: a organização da sua própria vida. Aí as pessoas pensam que podem poupar qualquer esforço e que não necessitam investir um trabalho equivalente a qualquer outra atividade da vida.


Por exemplo, as pessoas permitem-se opinar sobre ética e filosofia com a mesma ignorância que se opinassem sobre física quando podem ignorar, de facto, quase tudo o relativo ao sentido destas disciplinas. Considera-se que isso é democrático mas o contrário é rapidamente tildado de elitismo. Conste que não digo isto com a ideia de que as pessoas se inibam de opinar sobre estas questões quanto de que reparemos nesse facto, que tenhamos consciência dele.


De outra parte estão as pessoas que cultivam um certo esoterismo com relação aos diferentes saberes e que não sabem, realmente, do que estão tratando. O esoterimo é inerente à vida e não necessita ser cultivado. Mais bem precisamos ser claros, abertos e diretos pois as dificuldades inerentes à experiência humana são mais que suficientes como para embrulhá-las de mistério e de obstáculos intencionados. Não procuremos o sofrimento, ele vai vir por si próprio, provavelmente. Não é preciso que ninguém nos prove, mais bem deixemos nós de pôr a prova o que não podemos medir senão grosseiramente.


Sou elitista, no sentido em que devemos tentar fazer as cousas melhor em todos os aspetos. Ao mesmo tempo devemos investir tempo, intenção correta, atenção e dedicação à compreensão adequada, harmónica, da nossa experiência e da nossa vida.


Só quando tentamos cumprir ajeitadamente no nosso âmbito profissional e pessoal podemos intuir a necessidade de algo mais. Ou podemos compreender a insatisfação que isso por si só pode ser. Via geral as pessoas que cumprem os seus deveres básicos e têm desenvolvido um sentido comum que não tenta revolucionar o mundo podem buscar mais satisfactoriamente uma sabedoria que os completa como seres humanos. É, quando menos, um estado que deveriamos ver como uma base necessária.


Em certos círculos, que se consideram esotéricos, desestima-se às pessoas “normais”, às que não chamam atenção sobre si mesmos pela sua “genialidade”, a sua forma de ser interessante, etc. Mas são estas pessoas “normais” as que formam a base da verdadeira promesa, do verdadeiro optimismo, e da verdadeira realidade de que algo permanente se transforme no ser humano.


Sou elitista porque as pessoas que cumprem com os seus deveres enfrentando-se às dificuldades da vida sem abandonar a consciência de “algo mais” e lutam por estes valores tentando superar-se a si mesmos são a minha verdadeira família, família próxima e anónima, família humana, singela e viva.


A elite possível ou real.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Caracteres III


Sempre se criam associações indejesáveis em relação a usos e intrumentos precisos. Não é possível evitar a distorção e o mal uso quase de qualquer cousa que surge com um propósito definido. Ao rever o enlace que envia para o artigo do Eneagrama faz-se uma consideração sobre o facto da sua relação com as pseudociências. É claro que esse é um perigo. E um facto que é utilizado assim. Provavelmente esse seja o seu uso maioritario.


A única maneira de reapropiar-se do correto consiste en desenvolver uma prática adequada e insistir na necessidade de procurar a forma para a que foi concebido. Muitas vezes ensinos com um potencial de desenvolvimento são utilizados para objectivos limitantes e grosseiros. Mas não há nada que possamos fazer ao respeito excepto desenvolver e buscar o modo correto.


Algumas pessoas pedem maiores explicitações de qual é modo correto mas penso que o essencial é que as pessoas o procurem, se estão interessadas. Realmente a diferença entre um saber de tipo informacional e outro de tipo mais sapiencial é que o segundo tem que ser contrastado com a própria experiência. Pode que isto seja assim em quase tudo mas é inequivocamente assim no que implica o autoconhecimento. É assim por definição. De maneira que não há uma teoria ou um sistema como tal mas uma compreensão progressiva que se realiza desde a própria experiência. Esta é a razão de porque existem sugerências, indicações ou considerações para ser trabalhadas não simplesmente para ser rejeitadas ou aceitadas. Neste caso estariamos perante um patente ou velado modo de condicionamento.


Pode parecer curioso mas todas as pessoas estamos à espera de intruções claras e precisas. Se isto acontecer de jeito direto geralmente carregamos estas instruções de uma esperança que anula o seu sentido. Carregamos de tal utilitarismo certo tipo de saberes que virtualmente os voltamos inúteis. É o nosso perpétuo paradoxo. Mas, por outro lado, se algumas pessoas recebessem instruções precisas simplesmente as rejeitariam, apesar de estar exigindo o contrário.


Voltando ao problema do carácter e da personalidade, se observarmos os problemas de comunicação, nos grupos e nas organizações, muitos problemas de funcionamento surgem de choques de carácter e personalidade onde ninguém escuta ninguém. De facto, em certos contextos, a comunicação com um mínimo de objectividade é impossível. Há demasiados preconceitos e imaginação funcionando. Demasiadas projeções também. Pode que o tão considerado "silêncio do sábio" não seja muitas vezes mais do que isto: não dar pé a uma excessiva manipulação do dito. Mas até o silêncio se "santifica" com intenções que, quiçá, não tenha.


Estamos tão habituados aos gestos, às proclamas de intenções, a marcar o nosso território ideológico, às autodefinições "para que constem" que não percebemos o limitante de tudo isso. Rapidamente temos que assegurarmo-nos um lugar de referência e marcar a distância com os outros, imaginados ou reais.


Sempre me chamou a atenção como algumas pessoas julgam a outras simplesmente por vê-la falar com tal ou qual pessoa, por vê-la com tal ou qual livro ou por circuntâncias bastante aleatórias e incidentais. Pode que eu esteja errado mas existe uma espécie de marcagem, até por parte de pessoas próximas, que vem com preocupação que nos afastemos da "ortodoxia" e que se preocupam "pelo nosso bem". Querem-nos salvar de nós mesmos mas não são conscientes de que essa "compaixão" não é boa e de que têm uma pobre opinião da pessoa que estimam. Mas estas pessoas deveriam compreender que só se preocupam por si mesmas e não por nós. É um problema que têm consigo próprias e deveriam reconhecê-lo.


Não há uma verdadeira comunicação ali onde se pretendem projetar identidades. Uma verdadeira identidade nunca é uma projecção. Se existe, então é algo tácito. E, se não existe, pois tampouco deveria ser um problema.


Infelizmente sofremos o condicionamento de considerarmo-nos aceites se participamos das mesmas ideias, e assim é como nos vendemos baratos!


Realmente a vida é gratuita e ninguém nos deveria vender nada a não ser cousas como sapatos, livros ou uma casa, ponho por caso. O resto, que não é pouco, não deveria comprar-se ou vender-se.




terça-feira, 12 de maio de 2009

Caracteres II


Teofastro foi o sucessor de Aristóteles. Ele contribui a estudos práticos como os da botánica e as tipologias do carácter. É interessante o dado porque nos permite entrever um tipo de estudo mais funcional que o da filosofia abastracta com interesses polifacéticos e interconectados. Mas vamos ao carácter.

A maneira em que funciona o que chamamos de personalidade poderia definir-se como a rigidez e invariabilidade da nossa resposta, que está fixada, e que reitera um tipo de comportamento incapaz de abrir-se ao novo, ou simplesmente à realidade. Existem visões diferentes e estereotipadas que são como uma marca ou uma impronta. Há desde condicionantes biológicos até fatores ambientais e sociais. A admiração do que comunmente chamamos de "personalidade" tem a ver muito com este elemento fraudulento da construção e fixação da nossa versão sobre a realidade.

Isto leva-nos a observar, por exemplo, o que poderiamos chamar as diferentes Bestas negras com que os indivíduos e grupos humanos tendem a justificar o seu lugar existencial numa falsa dialéctica, construída com a única tentativa de manter no seu lugar a identidade falsamente adquirida. Tudo isto é uma operação de marcagem que solidifica ou baliza o ser essencial, não deixando-o correr e crescer.

De aí a necessidade de alimentar o mundo emocional com diferentes espécias e picantes que encobram a naturalidade. É como buscar líquidos sofisticados quando o que precissamos é água.


Sobre este ponto o Eneagrama mostra algumas questões interessantes. É um simples instrumento com todas as virtualidades e equívocos aos que pode levar mas merece um estudo atento, que não deve convertir-se num fim em si mesmo como parece acontecer com algumas pessoas:

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Caracteres I

Os mesmos vícios que nos parecem imensos e intoleráveis nos demais não os advertimos em nós


Ontem encontrava o livro de La Bruyére, Les caractères, entre os livros da minha biblioteca. Casualmente tratava-se do dia em que se cumpria o aniversário do seu falecimento. Pensava em escrever um post sobre o condicionamento emocional e o carácter, do que já falei aqui brevemente. Um dos interesses mais notáveis da filosofia prática, que tem no dito "Conhece-te a ti mesmo" a sua máxima, tem a ver com o auto-conhecimento das limitações e condicionamentos que formam o carácter. Antes de poder superar e alcançar estágios mais altos de desenvolvimento é preciso um trabalho sobre as própias manipulações do nosso ego. É um tema delicado. A nossa identificação com um sentido de ser e de existência está tão arraigado em nós que qualquer tentativa de desmascará-las topará com uma resistência até violenta.

No pensamento francês nota-se uma corrente de "psicólogos" muitas vezes (equivocamente) chamados de moralistas (La Rochefoucauld, Moliére, La Bruyére, Montaigne...) que mostram um refinamento de espírito muito subtil e emparentado com a procura de uma sabedoria tradicional que se remonta, pelo menos, à época dos trovadores, ao gai saber.

Trata-se do descobrimento dos tipo psicológicos como modelos de comportamentos estereotipados dos que estamos presos, com os que nos identificamos emocional e passionalmente de jeito, por tanto, inconsciente e que tomamos pelo nosso verdadeiro ser.

Na sociedade actual isto mostra-se como uma ênfase no consumo emocional de determinado tipo de paixões e emoções fortes e agressivas, morbosas ou excitantes. Trata-se de comprender que esta educação emocional e sentimental consome e devora um aceso a um nível mais profundo e sutil da experiência humana.

domingo, 3 de maio de 2009

Pequenas histórias


O autor ausente.


Perguntaram a um conhecido escritor porque quase não aparecia publicamente para promocionar os seus livros, ao que respondeu:
-Que outro motivo haveria para escrever livros senão que o autor possa permanecer ausente!
Como insistiram que se explicasse disse:
- São públicos diferentes os dos meus livros e os da minha pessoa. Não devemos confundi-los!


O encontro de Abu Said.


Uns homens que mostravam os signos da piedade e a erudição religiosa foram visitar Abu Said. Quando chegaram à sua casa este respondeu-lhes:
- Se buscáis a Deus porque vindes a mim?. E se não buscáis a Deus, porque vindes a mim?
Mas não foram capazes de compreendê-lo!


Sunna.


O profeta Muhammad disse: " Chegará uma época em que o conhecimento estará ausente"
Ziad ibn Labid disse: "Como pode desaparecer o conhecimento se repetimos o Corão e ensinamos-lho aos nossos filhos. E eles ensinarão-lho aos seus filhos, até o dia da recompensa?
O Mensageiro respondeu: "Surpreendes-me, Ziad, pois pensei que fosses o mais sábio entre os sábios de Medina. E os judeus e os cristãos não lem a Torah e os Evangelhos sem compreender nada do seu verdadeiro significado?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Culto da personalidade

To Be or Not To Be (Lubitsch, 1942)


Os estudos da sociologia e da psicologia contemporânera mostram como caimos sob padrões de comportamentos emocionalmente condicionados. Todas as sociedades tendem a fazerem isto com os seus indivíduos. Se olharmos as culturas ao longo da história estas programam aos seus membros a respostas que resultem "úteis" à tribo mas não necessariamente significam algo de valor para os indivíduos mesmos.


Com todas as críticas que se podem fazer á sociedade ocidental, digamos que esta se encontra num momento em que os indivíduos podem aproveitar isto para o seu próprio desenvolvimento de um jeito como não existira até agora. As pessoas esquecem que o autobombo sobre a "liberdade" é algo que não se começou a experimentar, de facto, até há bem pouco tempo. É uma liberdade em termos de virtualidade pois pode significar o contrário se não é utilizada construtivamente.


Se os indivíduos não assumem a necesidade de dar um sentido à vida sobre uma senda de procura da sabedoria simplesmente não há garantia de que nada do que se faça leve a lugar nenhum. Isto é também o legado ético do mais alto da cultura grega (ocidental, mas nem tanto como se pensa). Mas a sofística também é grega e calou muito mais do que a verdadeira mensagem dos mestres clássicos.


Entretanto sempre me surpreendeu o culto à personalidade (artística, política, social) presente em Ocidente sem nenhuma autoconsciência crítica. Perfeitamente visualizável nos grupos e capelas de todo tipo e condição. Muitas vezes feito de um jeito refinado e mesmo alambicado. Disfarçado também em muitas formas de contestação que mostra a fraqueza dos contestatários (uma das pessoas mais obsesionada com o poder que conheci na minha vida era um anarquista).


Se alguém reconhece a necessidade de um Mestre (e agora ponham-se a refelectir dous segundos sobre o que isto significa, realmente) causará surpresa em muitas pessoas que até esse momento o consideravam uma pessoa fiável. Passará a ser algo assim como uma pessoa de quem se diga: parece mentira, tão inteligente que é e pensa na necessidade de um mestre! Que decepção!

Todos os fantasmas, condicionamentos e medos inculcados desde a mais tenra infância afogarão a intuição essencial do homem de buscar um sábio que o ajude a ser um verdadeiro ser humano. E, como não?, sempre confiarão mais em Barrabás ou em qualquer homem de longas barbas que os impressione mas que basicamente não os comprometa nem lhes diga a verdade porque então teriamos um problema e nenhuma desculpa. E isso é intolerável: quem é ele para dizer isso?

Será alguem, é de supor, que não tenha uma reputação que cuidar ou manter.


Em último caso estamos dispostos a perder a reputação perante os outros mas perder a reputação ante nós mesmos é mais duro.


Como dizemos os galegos: ti dissimula!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Aforismos e folhas soltas

Rumo às Cies, o 11 de Abril.


A ideia de que ensinamos em virtude dum desejo é errada. Ensinar não tem nada a ver com desejar ensinar. Não quero dizer que o contrário seja o correto mas deve ser pensado como um fator de distorção.

A razão pela que não falo, dizia um , é porque notei que tinha vontade de dizer algo. Notei isso como uma compulsão, de maneira, que é preferível ficar calado.


Que governem aqueles que menor desejo tenham de o fazer, dizia Platão.


Mas vai ser difícil que o façam pois não funcionam com o pau e a cenoura.



Enfim, que anarquia!

















terça-feira, 24 de março de 2009

Extinção


Se fizermos uma olhada rápida aos últimos duzentos anos da história humana vemos uma aceleração progressiva em todas as ordens. Calcula-se que neste século podem desaparecer a metade das línguas do planeta e um 20% das espécies animais e vegetais. É algo descomunal. Os últimos informes sobre o "Câmbio climático" são sobrecolhedores pela celeridade das mudanças. A demografia é uma bomba em activo ( e o Papa com as suas obsessões por África, enfim). A economia (que deveria estar subordinada a uma ecosofia) é um latrocínio.

Como quase sempre acontece há uma inercia, inevitável por outro lado. Mas os signos de tensão e frustração incrementam-se. Sobretudo a sensação para muitos de que não há uma saída ou de que a própria vida apanha umas dimensões absurdas.

Isto leva a certos posicionamentos à defensiva: um conservacionismo que não é capaz de conectar-se com as dimensões do problema e propõe soluções voluntaristas ou moralistas ou simplesmente tecnocráticas.

É clara uma manifesta linha de evolução errada em muitos processos que arramcam desde a Revolução Industrial e provavelmente desde antes (digamos circa 1500). A responsabilidade humana neste processo é óbvia mas seria provavelmente superficial focá-lo só desde essa perspectiva. Poderia haver dimensões cósmicas implicadas no processo?

Não pretendo situar-me na posição apocalíptica ou algo assim mas de ver com claridade como estamos numa situação excepcional dentro da história humana. Como isto põe em xeque todas as formas conhecidas com as que tentamos compreender e limitar a nossa experiência, e como as respostas não podem ser mais, mais e mais. Põe-se o problema da qualidade sobre a quantidade. Há formas da experiência que se centram sobre o local e que porém têm um alcance global.

Provavelmente a excelência não consista em planos delirantes de controle sobre a totalidade mas agir desde o local, desde o autóctone sobre a base da experiência humana essencial. Um trabalho arquetípico como na Arca de Noé: a ideia de que trabalhamos com maquetas e cenários que se interconectam. Cada animal são todos os animais, cada ser humano são todos os seres humanos.

De que maneira a sabedoria se conecta com a continuidade da vida e que tipo de impacto tem sobre a organização viável da vida, além das aparências? Não se trata de pensar maquiavelicamente sobre a base de cálculos infinitos e infinitessimais mas de harmonizar-se com a corrente evolutiva em acção. Isto nas circuntâncias actuais sente-se como uma inusitada pressão que obriga a buscar uma saída.

Sempre me chamou a atenção a extinção súbita dos dinosáurios e como esses pobres mamíferos do tamanho de um rato se impuseram depois. É descrito como uma "casualidade fortuita". Penso como as dimensões mastodónticas e sáuricas da nossa civilização poderiam sofrer uma catastrofe similar, e quase tenho para um romance de ciência fição.

Continnuarei com o tema que agora deixo inconexo e sem uma projecção clara.

Os meus concidadãos, ou os seus políticos, propõem a Torre de Hércules como Património da Humanidade. Esperemos que o homem também o seja. Algum dia.