domingo, 10 de janeiro de 2010

Um ponto no céu


Desde há um tempo vinha pensando em parar este blogue. As motivações que há um ano deram lugar a ele já não são as mesmas. Quero-me despedir agradecendo a vossa atenção, com comentários ou sem comentários. Para mim foi uma muito boa experiência. Significou voltar a escrever depois de muitos anos sem o fazer. Mas a vida continua e a fidelidade às próprias palavras obriga a não abusar das mesmas.


Olhando para atrás sempre há cousas que modificaria mas é a lei da vida. Peço aos amigos benevolência e que saibam tirar o trigo do jóio, aquilo que tem valor por si mesmo do que não são mais do que expressões caracteriológicas ou de personalidade. Como diz um velho aforismo com o que me quero despedir:


"Não há mérito no bom que aqui percebes pois não me pertence

só o erro é da minha própria colheita,

esses são os méritos próprios"


Um sorriso e um grande abraço, amigos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Bom Natal, amigos.


Queridos amigos,


quero-vos desejar um Feliz Natal e que o 2010 seja bom para todos. Que isto seja um abraço para ausentes e presentes, para os que podem estar junto às suas família como para aqueles que se encontram distantes.


E que o verdadeiro espírito do Natal encontre um lugar no vosso coração.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A noite de Rustam Çiçek I: cometas e noites


Durante semanas Rustam Çiçek desaparecia de Istambul. Era uma incógnita saber os seu lugares, as suas paragens, onde pousaram os seu olhos, em que desertos e poeiras tinha deambulado. Secretamente desaparecia. Tão só Ibrahim parecia intui-lo e, como gatos em harmonia, desapareciam ambos, mas em diferentes direções . Dizia-se que Rustam se perdia na sua Anatólia natal, que deambulava pelos caminhos perdidos das pequenas aldeias e vilas alonjados da civilização para rencontra-se consigo próprio, para além das identidades que os "cidadãos"se empenhavam em atribuir-lhe e que, afinal, começavam subtilmente a pesar sobre a sua consciência. Era então o momento de apanhar os caminhos de poeiras e sóis, de chuvas e neves. Como um rei disfarçado de mendigo, Rustam Çiçek sentia a verdadeira liberdade das planícies e dos campos, das devastadas pedras da Capadócia, sentia as suas mãos e os seus pes ao compasso do seu bordão como um ancião pastor da antiga Grécia. Os versos surgiam então nos sorrisos das raparigas descalças das terras nuas do interior. A pobreza que a civilização avara e paranoica se esforçava por eliminar da sua consciência refulgia ali na sua pureza essencial. Era a riqueza essencial do ser: o seu riso vivo e trascendente. Então recordava as palavras de Saadi de Shiraz, o velho e generoso mestre persa:
- Tão avaros que se o sol caisse no seu prato nunca mais ninguém veria a luz do dia.

E ria só, de aquela maneira como só podem rir as crianças e os loucos. Ele, o viageiro perdido da sua terra natal. Então surgia o breve poema:


Os teus olhos, irmã

nasceram na noite primigénia

ambos seremos poeira como as pedras

e as areias de Anatólia

mas os teus olhos perdurarão

e o meu amor perdurará

como perduram pedras e

poeira em Anatólia.


Ou também:


O teu sorriso iluminou o sol

entristecido nas nuvens,

rapariga dos astros

E agora os teu cabelos ardem

e o vento sussurra:

- Dança, dança.



E Çiçek podia iniciar um baile no Sol-Pôr, não uma dança frenética mas pausada e ágil, cheia de graça e harmonia. Era uma dança hierática e sinuosa, como um estranho mimo que se movesse por entre os espectros da Guerra de Troia.


O espectáculo de um louco solitário e livre dos simples e honestos costumes dos "cidadãos".


Podia ouvir então "Cometas e noites" ou "Noites e noite" (Shahâbhâ va shabhâ), do poeta persa.


Az zolmat-e ramide khabar midehad sahar
shab raft o bâ sepide khabar midehad sahar
az akhtar-e shabân rame-ye shab ramid o raft
az rafte o ramide khabar midehad sahar



De uma rebelião contra o obscuro fala a alva

a noite foi-se e com a aurora fala a alva

a multidão assustada vaga na longa noite

a estrela do pastor foi-se embora

e de um obscuro temor ao longe fala a alva.






quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Identidade

Livraria Lello, no Porto

Gostaria de lembrar uma pequena história na que me vi envolvido há uns cinco anos quando se celebrou um simpósio na cidade de Porto dedicado a José Marinho. Eu apresentava uma comunicação intitulada Ética, paideia e anagogia que versava sobre a perspectiva que Marinho dava à pedagogia da filosofia. Para ele havia uma eiva tanto na tradição procedente da teologia como na ciência moderna e tentava restaurar a noção de magistério espiritual e iniciação. Ele foi o filósofo português e um dos europeus mais profundos e mais "filósofo", não há duvida.

Pois bem, eu tinha enviado um título provisório que tratava sobre os relacionamentos dos diversos "platonismos" e o pensamento de Marinho. Algures fazia referência ao sufismo e aos platónicos da Pérsia, também aos Ishraquiyum ou filósofos orientais do sohravardismo mas depois não falei disso. As informações dos ponentes eram porém que alguém procedente da Galiza ia falar sobre isso.


Eu devia dar a minha conferência à tarde, depois do almoço. Os conferenciantes fomos convidados, não eramos muitos, e tomamos uns vinho do Porto numa salas pertencentes a um antigo edifício da Universidade. Durante mais de duas horas falamos e intercambiamos pareceres de diverso tipo até que chegou o momento de voltar para a sala de conferências. Eu era o primeiro em falar. No passeio até a Faculdade encontrei-me à minha beira com um dos conferenciantes, um padre muito fervoroso nas suas convições. Começamos a falar e depois de um tempo disse-me:


- Parece que vai falar um que vem da Espanha sobre as relações do pensamento de Marinho com o pensamento islâmico. Que terá a ver uma cousa com a outra?


- Sim, isso parece, respondi. E sorri.


E continuamos a falar sobre diversas questões não estritamente filosóficas. Por exemplo, este homem estava muito interessado por saber quem era um acompanhante de um amigo meu, aliás o editor das obras completas de José Marinho. Não entrava dentro dos seus cânones académicos, provavelmente, um homem de grandes barbas e aparências boémias, Fritz, meio alemão nascido em Angola e que acompanhava ao seu amigo da adolescência no país africano simplesmente por interesse pessoal, sem mais assuntos.


Chegou o momento de entrar na sala e não sei qual seria a face deste bom padre quando fui apresentado como o galego, o único "estrangeiro" ali presente, e que tanto incitava à sua curiosidade.


Durante mais de quinze minutos foi falando comigo e nunca reparou que eu podia ser esse homem que tanto o preocupava!


Uma vez Nasrudin entrou numa loja e o homem disse-lhe:


- Bom dia!

- Um momento, disse-lhe Nasrudin, o senhor já me tinha visto antes?

- Não, nunca.

- Então como sabe que sou eu?

domingo, 22 de novembro de 2009

Carta a um amigo


Querido amigo:

compreendo as tuas inquietações sobre o devir da humanidade. Com certeza são as mesmas que as minhas. Provavelmente no íntimo desenvolver-se do quotidiano muitas pessoas se ponham essas mesmas questões que tu tens. Como agir? Que fazer?. Há uma estranha inércia dos tempos, por vezes parece que ninguém tem interesse em nada, que tudo é um ir cobrindo aparências, à espera do seguinte protocolo burocrático, como se a vida fosse simplesmente uma cousa atrás da outra. Mas que resposta posso dar-te? Não tenho nenhuma. Na realidade não tenho uma ideologia qualquer, não sou galeguista nem nacionalista nem iberista nem europeísta. Não posso entusiasmar-me com as "novas" políticas e não acredito que os jornais me tragam a "Boa Nova". Considero isso (as diferentes etiquetas ideológicas) falsos problemas que me evadem do meu plano de imanência. Devemos ser realistas com relação ao nosso lugar no mundo. Sou uma pessoa normal, que dá aulas de secundária de algo pouco prático (filosofia) e tenho uma família com a que procuro conviver em harmonia. Tenho interesses culturais e humanos de autoformação, procuro desenvolver o meu civismo dentro de uns limites comuns e não destaco por nada especial. A máxima incidência pública são blogues entre amigos. De maneira que a questão sobre projectos e planos de futuro de carácter global são grandes demais para mim. Vou vivendo, simplesmente. Acredito que a riqueza que posso compartir com outras pessoas é este ir vivendo sob a consciência tácita de uns valores essencias que eu chamo de Tradição. É uma preocupação muito pragmâtica que não me permite envolver-me em Ideais porque tento aprender diariamente a ser um ser humano no contato diário com outros seres humanos: e isto é muito mais importante e provavelmente marcante que teorizar sobre grandes planos. Digo isto com todas as limitações inerentes a uma afirmação deste tipo.
Se conservamos o nosso ideal interno na nossa imanência poderemos fazer realmente boas cousas, tal e como o homem verdadeiro dos taoístas. Significa um saber fazer sem grandes planos, ligado ao desfrute dos acontecimentos e dos encontros. São os políticos, intelectuais, etc. os que carregam com o peso de "representar" a outros. Considero que a única política verdadeira está em apresentarmo-nos como seres humanos desde a nossa experiência real, não imaginada ou desejada. Conheci um velho mestre (Omar Ali Shah) que punha o exemplo da "gota de azeite". Sobre um papel pomos diversas gotas cá e lá. Depois de um tempo o papel absorve o azeite que se vai extendendo até entrar em contato. Não há luta pelo controle, há um desenvolvimento progressivo e harmónico. Em vinte anos as mudanças podem ser decisivas e quase não teremos reparado nisso, como ver a nossa fotografia de um tempo atrás. É o que se conhece no sufismo como "técnicas do tingido". Por isso é tão diferente a sabedoria oriental e tão necessária hoje. Nós podemos construir isso mas não é preciso lutar contra nada, simplesmnete temos que nos esforçar em experimentar e aprender de maneira que o "sentido comum" se torne algo concreto e efectivo. De súbito compreendemos que ver com claridade só nos obriga a ter um pouco de esse tão denostado sentido comum. Devemos deixar de ser heróis, esforçados prometeus. Esse tempo já passou.Não há melhor exemplo que a experiência budista neste sentido, não tenho a menor dúvida. Provavelmente a experiência civilizadora mais impressionante da história humana.
Ressumiria dizendo: deixemos de fazer planos, vivamos incrementando as nossas possibilidades, as nossas experiências mas abandonemos toda ideia de controle e dirigismo: na verdade não podemos controlar nem dirigir nada.

Só um poema final dos índios da pampa argentina:


Nuestra llanura.

Esta es, hermanos, nuestra tierra ancha
donde nada se detiene, donde todo pasa,
y el viento no duerme y el horizonte anda

Esta es, hermanos, nuestra tierra ancha,
vivimos en toldos. Cuando el tiempo cambia,
cambiamos los toldos. Así es nuestra vida.

Esta es, hermanos, nuestra tierra pampa
No es tierra estrecha, la tierra es bien ancha.
Por mucha que quieran a todos alcanza.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crenças


Contrariamente ao que se pensa as religiões não são algo fixo, estabelecido e dogmático. Quer dizer, podem usurpar essa função mas, com que direito?. Sempre me surprendeu a maneira em que Ocidente cedeu terreno perante o direito eclesial e romano. Não se trata de ser isto ou aquilo mas de pensar o seguinte:



Qual é a legitimidade de este ou de aquele para dizer que eles são os únicos representantes de tal ou qual religião?



Por outro lado, que é relamente a religião?. Porquê aceitar uma determinada visão?. Em que medida todos somos responsáveis da nossa tradição e não podemos desentender-nos dela?

De maneira que, por exemplo, porquê rejeitar ou aceitar algo sem termo-nos posto a questão prévia de uma verdadeira investigação? Se Muhammad dizia que o Corão tinha sete níveis diferentes de significação segundo o desenvolvimento da pessoa, que quer dizer com isso?



E se, por exemplo, a tradição budista acredita na reencarnação, que significam estes versos de Nagarjuna, um dos mais prominentes budistas da tradição Mahayana:



Supõe-se que a pessoa se reencarna

Mas quando um procura essa pessoa

Não pode encontrá-la, nem nos seus cinco agregados

nem no âmbito dos sentidos, nem dos elementos

Então, quem é o que se reencarna?



Damos por feitas as cousas como se estas tivessem uma identidade estável, de uma vez por todas. Que interessante que estas mesmas considerações as possamos encontra em Spinoza, Hume ou Nietzsche.



Somos o que comemos


(Provérbio)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três médicos e um funeral

Summer Night de Liang Feng



O imperador da China encontrava-se à beira da morte. Os sábios e médicos da corte procuravam uma solução mas o homem piorava. A situação era políticamente instável e alguns ministros tomaram a decisão de procurar um médico fora dos muros da corte. Decisão muito arriscada mas que foi necessária dada a difícil situação que atravessava a nação.


Pouco depois os espiões do reino chegavam com a informação de que um escuro médico de um bairro da cidade de Pekim podia ser o homem que precisavam.

- Que venha imediatamente- disse o primeiro ministro. Já tinha que estar aqui!

E aí podéis ver um homem de mediana idade, de cabelos grisalhos, aspeito singelo e modos naturais, sem afectação alguma. Era como se a presença na corte o intimidasse mas, ao meso tempo, não lhe causasse impressão. Estranho paradoxo que tem uma explicação: ao seu lado os homens pareciam vulgares e isso avergonhava-o. Era como se interiormente disesse:

- Desculpem, não foi ideia minha o de estar aqui. Não quero incomodar os seus assuntos.


Por outro lado podia sentir a inveja e a expectação malevolente dos cortesãos.

Bem, o caso é que o médico achegou-se ao imperador e deu-lhe a beber uma poção, que renovou durante três dias.

O imperador curou totalmente. E foi uma felicidade mesmo para os invejosos que viram que as suas cadeiras já não perigavam.

O imperador falou para o médico:

- Que notável que um homem do teu talento só seja conhecido num pequeno bairro de Pekim. Poderias explicar a que se deve a tua discreção?

- Veréis, majestade- disse o médico. Eu só sou o mais pequeno de três irmãos. E todos somos médicos.

- Quem são então os teus famosos irmãos?-disse o imperador.

- Majestade, desculpe, mas não está a compreender o que lhe estou tentando dizer. Os meus irmãos, dos que eu aprendi, são menos conhecidos do que eu. O do meio só é conhecido na nossa rua. E o mais velho, o verdadeiro sábio, só é conhecido na nossa casa. Fora da nossa casa ninguém pensa que saiba nada de medicina. Assim é a nossa vida.

O imperador deu ordem de que trouxessem a esse médico desconhecido e oculto para o seu palácio. Queria tê-lo ali ao seu serviço para sempre.


Mas não houve sorte, pois o imperador foi informado de que o médico oculto acabava de falecer.

Todos olharam para o irmão, ainda presente. Este falou:

- Agora compreendo as palavras do meu irmão quando dizia que na verdadeira medicina era o médico o que pagava.