Mostrar mensagens com a etiqueta hermenêutica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta hermenêutica. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de setembro de 2009

Interpretações


António Machado é não só um grandíssimo poeta mas também um sutil filósofo. Gosto de ler e reler o seu Juan de Mairena de vez em quando. Inicia-se da seguinte maneira:


La verdad es la verdad, dígalo Agamenón o su porquero.


Agamenón- Conforme.


Porquero- No me convence.


De jeito compreensível durante muito tempo isto foi interpretado unilateralmente no sentido de que há verdades instauradas pelo poder que não podem convencer à parte fraca (o porqueiro). Era a típica explicação com consciência de classe de uma época.

Há, porém, a explicação de que o porqueiro é a parte desconfiada e ressentida da mente que não aceita a imparcialidade, em contraposição à nobreza do rei. A razão de que só se tenha visto uma cara durante muito tempo dá que pensar. Lembra-me o facto, que eu presenciei, de um sociólogo que interpretava os aforismos de Heráclito dizendo que era evidente o seu classismo e o seu aristocratismo, reduzindo o seu pensamento a uma simples emanação social.

Há uma frase procedente de Bahodine Naqshband que diz:

"Se ensinas por meio da autoridade não estás ensinando nada".
E haveria que acrescentar aquilo de que se só vês a autoridade do teu mestre não vês ao mestre.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Declaração de intenções: a razão.

Não foi na minha Anatólia natal que esta história aconteceu mas podia ser. Foi na velha Luanda, onde a velha lua passa caminhando, onde devagar a lua anda. Sim , Luanda. Negra de lua branca.

Fátima era velha e negra e cega. Também algo sábia. Solitária vivia com o seu tambor, uma Shams de Marchena nos subúrbios da cidade.

Os rapazes eram novos (para que dar os seus nomes?). E não eram cegos nem sábios mas também eram negros. Levaram-lhe um pássaro encerrado na mão: pequeno coração a pulsar, esperança viva do ser, estrela oculta.

- Ai, velha!. Dizem que es sábia! Veremos!. Tenho um pássaro na mão. Esta vivo ou morto?. Responde! Responde!

- Ai, meu filho. O pássaro esta morto e bem morto! Eu não me engano assim tão fácil. Com quem pensas que falas!

- Estupida!- disse o rapaz, abrindo a mão- Aí vai o pássaro. Não podes ver como voa, pois não? Adivinha-o, então.

E riram muito aqueles dous rua abaixo. E atrás deixaram a que agora passou a ser chamada, Fátima a farsante.


Desde então há um dito: "Quando tenho razão um pássaro morre mas quando a perco um pássaro vive"



Razões?. Tenho muitas razões mas isso não é o importante (Nietzsche)