domingo, 10 de janeiro de 2010

Um ponto no céu


Desde há um tempo vinha pensando em parar este blogue. As motivações que há um ano deram lugar a ele já não são as mesmas. Quero-me despedir agradecendo a vossa atenção, com comentários ou sem comentários. Para mim foi uma muito boa experiência. Significou voltar a escrever depois de muitos anos sem o fazer. Mas a vida continua e a fidelidade às próprias palavras obriga a não abusar das mesmas.


Olhando para atrás sempre há cousas que modificaria mas é a lei da vida. Peço aos amigos benevolência e que saibam tirar o trigo do jóio, aquilo que tem valor por si mesmo do que não são mais do que expressões caracteriológicas ou de personalidade. Como diz um velho aforismo com o que me quero despedir:


"Não há mérito no bom que aqui percebes pois não me pertence

só o erro é da minha própria colheita,

esses são os méritos próprios"


Um sorriso e um grande abraço, amigos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Bom Natal, amigos.


Queridos amigos,


quero-vos desejar um Feliz Natal e que o 2010 seja bom para todos. Que isto seja um abraço para ausentes e presentes, para os que podem estar junto às suas família como para aqueles que se encontram distantes.


E que o verdadeiro espírito do Natal encontre um lugar no vosso coração.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A noite de Rustam Çiçek I: cometas e noites


Durante semanas Rustam Çiçek desaparecia de Istambul. Era uma incógnita saber os seu lugares, as suas paragens, onde pousaram os seu olhos, em que desertos e poeiras tinha deambulado. Secretamente desaparecia. Tão só Ibrahim parecia intui-lo e, como gatos em harmonia, desapareciam ambos, mas em diferentes direções . Dizia-se que Rustam se perdia na sua Anatólia natal, que deambulava pelos caminhos perdidos das pequenas aldeias e vilas alonjados da civilização para rencontra-se consigo próprio, para além das identidades que os "cidadãos"se empenhavam em atribuir-lhe e que, afinal, começavam subtilmente a pesar sobre a sua consciência. Era então o momento de apanhar os caminhos de poeiras e sóis, de chuvas e neves. Como um rei disfarçado de mendigo, Rustam Çiçek sentia a verdadeira liberdade das planícies e dos campos, das devastadas pedras da Capadócia, sentia as suas mãos e os seus pes ao compasso do seu bordão como um ancião pastor da antiga Grécia. Os versos surgiam então nos sorrisos das raparigas descalças das terras nuas do interior. A pobreza que a civilização avara e paranoica se esforçava por eliminar da sua consciência refulgia ali na sua pureza essencial. Era a riqueza essencial do ser: o seu riso vivo e trascendente. Então recordava as palavras de Saadi de Shiraz, o velho e generoso mestre persa:
- Tão avaros que se o sol caisse no seu prato nunca mais ninguém veria a luz do dia.

E ria só, de aquela maneira como só podem rir as crianças e os loucos. Ele, o viageiro perdido da sua terra natal. Então surgia o breve poema:


Os teus olhos, irmã

nasceram na noite primigénia

ambos seremos poeira como as pedras

e as areias de Anatólia

mas os teus olhos perdurarão

e o meu amor perdurará

como perduram pedras e

poeira em Anatólia.


Ou também:


O teu sorriso iluminou o sol

entristecido nas nuvens,

rapariga dos astros

E agora os teu cabelos ardem

e o vento sussurra:

- Dança, dança.



E Çiçek podia iniciar um baile no Sol-Pôr, não uma dança frenética mas pausada e ágil, cheia de graça e harmonia. Era uma dança hierática e sinuosa, como um estranho mimo que se movesse por entre os espectros da Guerra de Troia.


O espectáculo de um louco solitário e livre dos simples e honestos costumes dos "cidadãos".


Podia ouvir então "Cometas e noites" ou "Noites e noite" (Shahâbhâ va shabhâ), do poeta persa.


Az zolmat-e ramide khabar midehad sahar
shab raft o bâ sepide khabar midehad sahar
az akhtar-e shabân rame-ye shab ramid o raft
az rafte o ramide khabar midehad sahar



De uma rebelião contra o obscuro fala a alva

a noite foi-se e com a aurora fala a alva

a multidão assustada vaga na longa noite

a estrela do pastor foi-se embora

e de um obscuro temor ao longe fala a alva.






quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Identidade

Livraria Lello, no Porto

Gostaria de lembrar uma pequena história na que me vi envolvido há uns cinco anos quando se celebrou um simpósio na cidade de Porto dedicado a José Marinho. Eu apresentava uma comunicação intitulada Ética, paideia e anagogia que versava sobre a perspectiva que Marinho dava à pedagogia da filosofia. Para ele havia uma eiva tanto na tradição procedente da teologia como na ciência moderna e tentava restaurar a noção de magistério espiritual e iniciação. Ele foi o filósofo português e um dos europeus mais profundos e mais "filósofo", não há duvida.

Pois bem, eu tinha enviado um título provisório que tratava sobre os relacionamentos dos diversos "platonismos" e o pensamento de Marinho. Algures fazia referência ao sufismo e aos platónicos da Pérsia, também aos Ishraquiyum ou filósofos orientais do sohravardismo mas depois não falei disso. As informações dos ponentes eram porém que alguém procedente da Galiza ia falar sobre isso.


Eu devia dar a minha conferência à tarde, depois do almoço. Os conferenciantes fomos convidados, não eramos muitos, e tomamos uns vinho do Porto numa salas pertencentes a um antigo edifício da Universidade. Durante mais de duas horas falamos e intercambiamos pareceres de diverso tipo até que chegou o momento de voltar para a sala de conferências. Eu era o primeiro em falar. No passeio até a Faculdade encontrei-me à minha beira com um dos conferenciantes, um padre muito fervoroso nas suas convições. Começamos a falar e depois de um tempo disse-me:


- Parece que vai falar um que vem da Espanha sobre as relações do pensamento de Marinho com o pensamento islâmico. Que terá a ver uma cousa com a outra?


- Sim, isso parece, respondi. E sorri.


E continuamos a falar sobre diversas questões não estritamente filosóficas. Por exemplo, este homem estava muito interessado por saber quem era um acompanhante de um amigo meu, aliás o editor das obras completas de José Marinho. Não entrava dentro dos seus cânones académicos, provavelmente, um homem de grandes barbas e aparências boémias, Fritz, meio alemão nascido em Angola e que acompanhava ao seu amigo da adolescência no país africano simplesmente por interesse pessoal, sem mais assuntos.


Chegou o momento de entrar na sala e não sei qual seria a face deste bom padre quando fui apresentado como o galego, o único "estrangeiro" ali presente, e que tanto incitava à sua curiosidade.


Durante mais de quinze minutos foi falando comigo e nunca reparou que eu podia ser esse homem que tanto o preocupava!


Uma vez Nasrudin entrou numa loja e o homem disse-lhe:


- Bom dia!

- Um momento, disse-lhe Nasrudin, o senhor já me tinha visto antes?

- Não, nunca.

- Então como sabe que sou eu?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Idries Shah


Hoje há treze anos que morreu Idries Shah. Sempre lembro esta data, que aliás tenho ligada também ao nascimento de Herberto Helder e Paul Celan. De maneira que hoje queria recordar a este homem que supus para mim a abertura a uma experiência de aprendizagem que não tem comparação possível com qualquer outro autor prévio, que eu tivesse lido. A sua influência foi decisiva e para o resto da minha vida.

Eu era estudante em Santiago quando entrei um dia na livraria Folhas Novas. Era um habitual da mesma, sobretudo depois de que me tivessem pagado a bolsa. Aquele dia encontrei num lugar inabitual e meio escondido um livro intitulado Aprender a aprender, da editora Paidós. Fiquei surpreendido pelo título, folhei o livro e comprei-no mas ficou durante meses numa gaveta. Quase um ano depois comecei a lê-lo e já não parei de procurar os textos de Idries Shah.

Cinco anos depois de tudo aquilo encontrei com o seu irmão, Omar Ali Shah, a quem "abri o meu coração". E uns meses depois, em Novembro, morria Idries Shah. Lembro que eu me encontrava em Lisboa naquela época. Não soube da notícia até Maio do ano seguinte numa viagem que fiz à Corunha e experimentei uma especie de choque.

Enfim, que posso dizer de Idries Shah? Que leiam os seus livros. Não encontrarão a um "oriental" ou a um "guru" ao estilo do orientalismo esotericista. Encontrarão um homem que transmite factos, informação e sabedoria para que as pessoas possam tecer com os seus próprios esforços um caminho de evolução. Um elemento essencial é como as pessoas podem utilizar tudo isso para conseguir ter uma relação de aprendizagem com um mestre. Ele fez um trabalho preparatório e criou um clima para a aceitação de ideias que de outro modo não poderiam ser digeridas.


Como ele costumava dizer: " A cor da água depende do copo que a contém".


Não deveriamos ficar a comparar copos mas aprender a beber a água ali onde está. Como reza no seu epitáfio:


"Não repares na minha forma exterior mas apanha o que está na minha mão"

domingo, 22 de novembro de 2009

Carta a um amigo


Querido amigo:

compreendo as tuas inquietações sobre o devir da humanidade. Com certeza são as mesmas que as minhas. Provavelmente no íntimo desenvolver-se do quotidiano muitas pessoas se ponham essas mesmas questões que tu tens. Como agir? Que fazer?. Há uma estranha inércia dos tempos, por vezes parece que ninguém tem interesse em nada, que tudo é um ir cobrindo aparências, à espera do seguinte protocolo burocrático, como se a vida fosse simplesmente uma cousa atrás da outra. Mas que resposta posso dar-te? Não tenho nenhuma. Na realidade não tenho uma ideologia qualquer, não sou galeguista nem nacionalista nem iberista nem europeísta. Não posso entusiasmar-me com as "novas" políticas e não acredito que os jornais me tragam a "Boa Nova". Considero isso (as diferentes etiquetas ideológicas) falsos problemas que me evadem do meu plano de imanência. Devemos ser realistas com relação ao nosso lugar no mundo. Sou uma pessoa normal, que dá aulas de secundária de algo pouco prático (filosofia) e tenho uma família com a que procuro conviver em harmonia. Tenho interesses culturais e humanos de autoformação, procuro desenvolver o meu civismo dentro de uns limites comuns e não destaco por nada especial. A máxima incidência pública são blogues entre amigos. De maneira que a questão sobre projectos e planos de futuro de carácter global são grandes demais para mim. Vou vivendo, simplesmente. Acredito que a riqueza que posso compartir com outras pessoas é este ir vivendo sob a consciência tácita de uns valores essencias que eu chamo de Tradição. É uma preocupação muito pragmâtica que não me permite envolver-me em Ideais porque tento aprender diariamente a ser um ser humano no contato diário com outros seres humanos: e isto é muito mais importante e provavelmente marcante que teorizar sobre grandes planos. Digo isto com todas as limitações inerentes a uma afirmação deste tipo.
Se conservamos o nosso ideal interno na nossa imanência poderemos fazer realmente boas cousas, tal e como o homem verdadeiro dos taoístas. Significa um saber fazer sem grandes planos, ligado ao desfrute dos acontecimentos e dos encontros. São os políticos, intelectuais, etc. os que carregam com o peso de "representar" a outros. Considero que a única política verdadeira está em apresentarmo-nos como seres humanos desde a nossa experiência real, não imaginada ou desejada. Conheci um velho mestre (Omar Ali Shah) que punha o exemplo da "gota de azeite". Sobre um papel pomos diversas gotas cá e lá. Depois de um tempo o papel absorve o azeite que se vai extendendo até entrar em contato. Não há luta pelo controle, há um desenvolvimento progressivo e harmónico. Em vinte anos as mudanças podem ser decisivas e quase não teremos reparado nisso, como ver a nossa fotografia de um tempo atrás. É o que se conhece no sufismo como "técnicas do tingido". Por isso é tão diferente a sabedoria oriental e tão necessária hoje. Nós podemos construir isso mas não é preciso lutar contra nada, simplesmnete temos que nos esforçar em experimentar e aprender de maneira que o "sentido comum" se torne algo concreto e efectivo. De súbito compreendemos que ver com claridade só nos obriga a ter um pouco de esse tão denostado sentido comum. Devemos deixar de ser heróis, esforçados prometeus. Esse tempo já passou.Não há melhor exemplo que a experiência budista neste sentido, não tenho a menor dúvida. Provavelmente a experiência civilizadora mais impressionante da história humana.
Ressumiria dizendo: deixemos de fazer planos, vivamos incrementando as nossas possibilidades, as nossas experiências mas abandonemos toda ideia de controle e dirigismo: na verdade não podemos controlar nem dirigir nada.

Só um poema final dos índios da pampa argentina:


Nuestra llanura.

Esta es, hermanos, nuestra tierra ancha
donde nada se detiene, donde todo pasa,
y el viento no duerme y el horizonte anda

Esta es, hermanos, nuestra tierra ancha,
vivimos en toldos. Cuando el tiempo cambia,
cambiamos los toldos. Así es nuestra vida.

Esta es, hermanos, nuestra tierra pampa
No es tierra estrecha, la tierra es bien ancha.
Por mucha que quieran a todos alcanza.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Crenças


Contrariamente ao que se pensa as religiões não são algo fixo, estabelecido e dogmático. Quer dizer, podem usurpar essa função mas, com que direito?. Sempre me surprendeu a maneira em que Ocidente cedeu terreno perante o direito eclesial e romano. Não se trata de ser isto ou aquilo mas de pensar o seguinte:



Qual é a legitimidade de este ou de aquele para dizer que eles são os únicos representantes de tal ou qual religião?



Por outro lado, que é relamente a religião?. Porquê aceitar uma determinada visão?. Em que medida todos somos responsáveis da nossa tradição e não podemos desentender-nos dela?

De maneira que, por exemplo, porquê rejeitar ou aceitar algo sem termo-nos posto a questão prévia de uma verdadeira investigação? Se Muhammad dizia que o Corão tinha sete níveis diferentes de significação segundo o desenvolvimento da pessoa, que quer dizer com isso?



E se, por exemplo, a tradição budista acredita na reencarnação, que significam estes versos de Nagarjuna, um dos mais prominentes budistas da tradição Mahayana:



Supõe-se que a pessoa se reencarna

Mas quando um procura essa pessoa

Não pode encontrá-la, nem nos seus cinco agregados

nem no âmbito dos sentidos, nem dos elementos

Então, quem é o que se reencarna?



Damos por feitas as cousas como se estas tivessem uma identidade estável, de uma vez por todas. Que interessante que estas mesmas considerações as possamos encontra em Spinoza, Hume ou Nietzsche.



Somos o que comemos


(Provérbio)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Três médicos e um funeral

Summer Night de Liang Feng

O imperador da China encontrava-se à beira da morte. Os sábios e médicos da corte procuravam uma solução mas o homem piorava. A situação era políticamente instável e alguns ministros tomaram a decisão de procurar um médico fora dos muros da corte. Decisão muito arriscada mas que foi necessária dada a difícil situação que atravessava a nação.

Pouco depois os espiões do reino chegavam com a informação de que um escuro médico de um bairro da cidade de Pekim podia ser o homem que precisavam. - Que venha imediatamente- disse o primeiro ministro. Já tinha que estar aqui! E aí podéis ver um homem de mediana idade, de cabelos grisalhos, aspeito singelo e modos naturais, sem afectação alguma. Era como se a presença na corte o intimidasse mas, ao meso tempo, não lhe causasse impressão. Estranho paradoxo que tem uma explicação: ao seu lado os homens pareciam vulgares e isso avergonhava-o. Era como se interiormente disesse: - Desculpem, não foi ideia minha o de estar aqui. Não quero incomodar os seus assuntos.

Por outro lado podia sentir a inveja e a expectação malevolente dos cortesãos. Bem, o caso é que o médico achegou-se ao imperador e deu-lhe a beber uma poção, que renovou durante três dias.

O imperador curou totalmente. E foi uma felicidade mesmo para os invejosos que viram que as suas cadeiras já não perigavam.
O imperador falou para o médico:
- Que notável que um homem do teu talento só seja conhecido num pequeno bairro de Pekim. Poderias explicar a que se deve a tua discrição?
- Veréis, majestade- disse o médico. Eu só sou o mais pequeno de três irmãos. E todos somos médicos.
- Quem são então os teus famosos irmãos?-disse o imperador. - Majestade, desculpe, mas não está a compreender o que lhe estou tentando dizer. Os meus irmãos, dos que eu aprendi, são menos conhecidos do que eu. O do meio só é conhecido na nossa rua. E o mais velho, o verdadeiro sábio, só é conhecido na nossa casa. Fora da nossa casa ninguém pensa que saiba nada de medicina. Assim é a nossa vida. O imperador deu ordem de que trouxessem a esse médico desconhecido e oculto para o seu palácio. Queria tê-lo ali ao seu serviço para sempre.

Mas não houve sorte, pois o imperador foi informado de que o médico oculto acabava de falecer. Todos olharam para o irmão, ainda presente. Este falou: - Agora compreendo as palavras do meu irmão quando dizia que na verdadeira medicina era o médico o que pagava.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tong Len (tomar e dar)

O caminho interior segue uma forma inversa da reivindicação. De aí que possamos dizer sem dúvida:

"O verdadeiro arrependimento é a expressão de que já fomos perdoados"



Quando seguimos a ética essencial compreendemos que não temos direito a exigir nada. A questão mais bem é que se nos aceite o nosso serviço. Devemos sentir-nos agradecidos de que as nossas intenções realmente possam ser úteis.


A consciência do próprio mérito avergonha e denota hipocrisia.


Sobre as justificações poderiamos dizer:


O que actua bem não tem justificação e o que actua mal melhor que não se justifique.



Um conto





Conta a tradição tibetana que Gueshe Chekawa foi a casa de uma família e viu um texto escrito pelos Gueshes Kadampa. O texto dizia:


"Oferece a vitória e o proveito aos demais e toma sobre ti a derrota e a perda"



Chekawa ficou muito surpreendido por estas duas linhas e decidiu indagar e procurar alguém que lhe pudesse aclarar o seu significado. Ele pensava que devia envolver alguma sabedoria oculta.


Encontrou que esse ensinamento procedia dos Oito versos do treinamento mental de Langri Tangpa mas ele já estava morto.


Procurou, procurou e procurou...E encontrou a Gueshe Sharawa, que dava ensinamentos tradicionais sobre ética e moralidade. Chekawa disse-lhe:


- Os vossos ensinamentos não me inspiram e eu queria que me mostrasseis a relação entre os versos Kadampa e os vosos ensinamentos.


- Que versos são eses?- perguntou Sharawa


- Oferece a vitória e o proveito aos demais e toma sobre ti a derrota e a perda- disse Chekawa.


- De quem é isso? - perguntou Sharawa


- De Gueshe Langri Tangpa, mas ele está morto- disse Chekawa. Es capaz de pôr isto em prática? É isto um ensinamento puro do Dharma?- continuou.


- Não importa se se pode pôr em prática ou não porque isso depende dos indivíduos. Uns podem e outros não podem, mas sem pôr isto em prática é impossível conseguir a Iluminação suprema.


Desde então Gueshe Chekawa recebeu os ensinamentos do Lo-Jong (treinamento mental) de Gueshe Sharawa durante treze anos.


Gueshe Sharawa, que passava por ser um simples mestre de moralidade, mas que na verdade era um consumado mestre na prática de Tomar e Dar (Tong Len), conduziu Chekawa à suprema Iluminação.


Mas foi Guesshe Chekawa quem divulgou o segredo (com as suas práticas) para que todos aqueles com boa vontade se pudessem beneficiar:


"Oferece a vitória e o proveito aos demais e toma sobre ti a derrota e a perda"

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Humanidade

Mãe amorosa


Ainda que para alguns se trate de um tópico tratarei o tema telegraficamente. Há um atentado contínuo perante o feminino e a feminização. Gosto desta frase de Ibn Arabi:



"Todo lugar não feminizado não é digno de confiança"



Provavelmente a forma de idolatria do poder e do control , da guerra e da destruição seja algo pobremente masculino. O masculino deve rendir serviço e proteção ao feminino. Em certo sentido o masculino é o exotérico e o feminino é o esotérico.


Quando isto não acontece, quando o essencial não é respeitado e amado, quando há competitividade e injustiça, simplesmente se está a matar a essência da criatividade. Um homem (ou uma mulher) se volta estéril e louco se não compreende isto.


Como dizia um índio sioux.


"O nossos melhores guerreiros eram de uma delicadeza e uma cavalheirosidade quase feminina no povoado mas mencionar o seus nomes era o horror dos inimigos"


Mas quais são os modelos baixo o actual sistema de domesticação, que não de cultura?


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Diferença e normalização

Roda do Dharma

O pensamento e a estrutura essencial da filosofia autêntica é unitiva mas dentro de um paradoxo. É uma unidade da experiência e da essência, não da forma. A tentativa de construir analogias, de fazer que as cousas se pareçam e se identifiquem é uma tendência humana compreensível mas é também uma forma de limitar a compreensão

É uma tendência humana estabelecer etiquetas e homologias. Para algumas pessoas não ter algo classificado ou situado é todo um problema em si mesmo.

Existe a ideia de que a comunicação se produze homogeneizando mais. De esta maneira para muitos "as minorias" são um "problema". Se só tivermos uma língua a comunicação seria mais fácil, pensam alguns. O que não pensam é que tipo de incomunicação foi necessária para produzir a imposição de uma única língua.

Tudo isto está relacionado com o processo normalizador do mundo moderno. Normalizar é reduzir a estruturas mensuráveis e homogêneas a diversidade intrínsica do real. Existe uma ilusão de totalidade e universalismo abstracto que literalmente exclui, elimina e cega às pessoas obrigando-as a ter como princípios absolutos umas bases economicistas e predatórias. O roubo e o assassinato são, desde esta perspectiva, uma solução.

Em todo o caso a realidade é a que é e não a que gostariamos que fosse, com toda a sua diversidade e com todos os seu direitos inerentes. E por mais que alguns, ainda que sejam muitos, se empenhem em dizer como são as cousas, as cousas simplesmente são sem conotações e valores.

Sempre pergunto aos meus alunos, em algum momento, qual é o sentido de jogar limpo num jogo. Que se ganha e que se perde se o não fizermos.

A pergunta tem miga. É necessário saber de economia, o básico.


Em última instância a ética é uma lógica pura. Como disse um mestre tibetano que conheci:


- Chegamos à iluminação por pura lógica.


- E o amor, a compaixão, e tudo isso- perguntou alguém


- Oh!, isso é a lógica mais estrita e pura.


E Sócrates não pensava diferente.



quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Intenção e acontecimento.

Carl Emile Mucke

O Princípio de Incerteza de Heisenberg não deixa de ser uma fonte de inspiração filosófica. A ideia de que a energia que suministramos a um sistema modifica o estado do mesmo e que pelo tanto não o podemos conhecer de maneira objectiva sempre me lembra uma frase de Kant no início da sua Antropologia, que cito de memória:


"O problema de estudar o ser humano é que este modifica a sua conduta desde o momento em que sabe que está sendo observado"

Isto tem aplicações também no facto da auto-observação, que é problemâtico.


Poderiamos dizer que há algo subtil chamado intenção e que, como no caso da luz, parece conhecer con anterioridade se a sua manifestação deve ser ondulatoria ou corpuscular.


Isto relaciona-se com a maneira de transmitir o conhecimento essencial que não segue um processo linear. O mestre fala de cebolas ou põe exemplos onde se fala de cores, mas então muda e passa a falar do gato de Nasrudin e tudo dentro de um discurso simples e facilmente compreensível num sentido superficial. Há pausas, gestos. Sucedem-se perguntas e respostas que parecem seguir um sentido convencional mas há toda uma série de acontecimentos que seguem um afinamento que depende da energia do contexto. As cousas realmente acontecem por algo. A ideia da casualidade é aqui supersticiosa. Há realmente uma causalidade funcionando num nível mais profundo e multidimensional do que parece.


Este é o motivo de que um livro possa ter outras funcionalidades que não resultem óbvias. Ou um objecto ou uma frase. Ou um comportamento. É como se falássemos para os presentes e para os ausentes, para o que há e para o que pode haver. Ás vezes sentimos que simplesmente temos que fazê-lo. Haverá um efeito em algum lugar. Assim o sentimos. Devemos actuar, sem poder explicar demasiado. De aí a importáncia de não fazer juízos precipitados.

Sobre o experimento de Robert G. Jahn clickar aqui:








"Se nós deixarmos de dançar o sol deixará de sair pelo horizonte", dizem algumas tribos. E dizem a verdade.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Transferência


Algumas vezes tenho ouvido a crítica que põe o facto de não ser necessário buscar o conhecimento em fontes orientais. Que a riqueza do pensamento e da tradição ocidental é suficiente por si mesma. Isto deve-se a que não falamos das mesmas cousas e dos mesmos significados. Quando com vinte e três ou vinte e quatro anos comecei a compreender que Nietzsche, Spinoza, Heidegger ou Kant não eram completos não o pensava só desde a perspectiva teorética. Era a sensação vital e existencial de que essas pessoas não eram realizadas. Em certo modo viviam de ideais. Poderia dizer-se que a eiva do pensamento ocidental é o seu idealismo.

Paralelamente a isso pode ver-se como se trata de um experimentalismo carente de sabedoria: toda a psicologia desde Freud em adiante mostra-o claramente. A psicanálise carrega um sentimento de culpabilidade e uma linguagem nefasta para o ser humano. Por um lado dá mas por outro tira. Se analisarmos a figura de Freud vemos como se transfire toda uma psicologia da perda e da culpa aos seus seguidores. Há dogmatismo, irracionalismo e obcecação com o tema sexual. Há sofrimento gratuíto. Há também ignorância sobre o ser humano.

Estas são afirmações fortes mas sei do que falo. O certo é que não se pode improvisar uma tradição nem descobri-la através do esforço e a heroicidade do século XIX e XX. O homem existe desde muito antes e não foi inventado pela revolução científica moderna ainda que, às vezes, pareça pretendê-lo.

A sensação que eu tinha é que essas pessoas andavam buscando mas ainda não encontraram. Comprometiam a outros e negavam as possibilidades que outros mais sábios lhes podessem oferecer na abertura de um caminho para a realização. Muitos só queriam defender as suas teorias contra outras teorias. Reconheciam a sua ignorância para a continuação comportar-se e dogmatizar sobre o divino e humano como se fossem deuses. Existia e existe uma inconsciência nefasta dos próprios limites. Sempre falam dos problemas que solucionam mas não dos que causam. É a mesma história que se nos falam da civilização ocidental mostrando-nos o Parlamento inglês e a Ilustração e obviando o colonialismo, o capitalismo e os massacres e genocídios do S.XX.

Mas o surpreendente é que esta crítica é assumida por muitos ocidentais para criar um malestar ou uma consciência de culpa sem assumir mais nada. Por exemplo, aceitar que os outros podem ter algo que ensinar também. Que não são só uns coitados e umas vítimas. Que podem ter um valor superior. Sim, a palavra própria é superior.

O conhecimento que é superior é aquele que dá razão autêntica da existência humana e tem os seus próprios profissionais como qualquer cousa na vida. Se das bases estabelecidas no S.XVII para o estudo da natureza se chega à bomba atómica, das bases estabelecidas muito antes sobre o mêtodo e a sabedoria se chega ao verdadeiro ser humano. Isto está plasmado de jeito ininterrumpido até a actualidade no Oriente. E se agora se encontra em Ocidente é justo reconhecer esta dívida com equidade.

Eu tenho uma frase sobre a maneira em que se podem assumir "as sabedorias" de todos os lugares e tempos para a construção de algo que é tão antigo como o ser humano.


"Se leste a Nietzsche e chegaste à Tradição essencial, então realmente leste a Nietzsche
se leste a Nietzsche e es nietzscheano só te estás justificando"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Expiação

Cabanas, ontem.

Existe uma forma de falsa humildade que padecemos e que consiste em não tomar da vida o que ela, gratuitamente, nos oferece. É como se não nos sentíssemos dignos. Mas é uma humildade que nos dana. Pode que inconscientemente sintamos uma ligação ou uma fidelidade a algo que sofre, padece ou alguém que sofreu ou padeceu. Pode que digamos: como eu vou ser feliz se ao meu redor acontece isto ou aquilo, se o meu pai ou minha mãe ou meu irmão sofreram isto ou aquilo e, então não nós abrimos, ficamos como a flor que tem medo de se abrir. Há algo no interior que nos leva os olhos ao chão.

Ou pode que nos sintamos sempre por debaixo e que seguir o nosso próprio destino seja trair a algo ou alguém. Poderiamos chamar a tudo isso as fidelidades ocultas.


Há outra maneira de responder, de assumir a própria voz e a responsabilidade:


"Tomo o meu e o vosso sofrimento, tomo o que vos custou a existência, tomo a vossa dor e honro o vosso esforço e aceito o vosso sacrifício e desfruto da minha felicidade em honra a tudo isso"


Não podemos "justificar" sem mais o que aconteceu. Há, aqui e agora, uma carga de redenção que une passado, presente e futuro. Não permitamos que tudo o que foi tenha sido em "vão".


E isto é uma profunda, muito pessoal maneira de dizer: "Gracias", "Obrigado"


O português e o espanhol são aqui perfeitamente complementares.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Amores eu tenho


Tive a sorte de conhecer ha já muitos anos a Natália Correia em Santiago. Ela era uma grandíssima poeta. Tinha sido convidada para falar sobre a sua visão da poesia e da literatura na Faculdade de Filologia e fez uma enérgica defesa da "poética" como a essência da revolução humana. Ela tinha publicado recentemente um livro intitulado "Todos somos hispanos" e reivindicava uma vocação cultural peninsular. Ela tinha muito claro o vínculo essencial de Portugal com a Galiza.

Casualmente essa noite encontrei com ela enquanto eu bebia um vinho do Porto num pub da zona velha de Santiago. Ela reconheceu-me ao instante e lembrou-se de uma pergunta que eu lhe tinha feito sobre a Galiza e Portugal. Ela disse-me:


- Eu percebi muito bem a sua pergunta mas fui diplomata de mais, eu estava "rodeada".


Piscou-me um olho, deu-me dous beijos e disse-me:


- Quando vaia a Lisboa, pergunte por mim!


Eu ri e imaginei-me chegando a Lisboa e perguntando a qualquer pessoa por Natália. Era engraçado. Mas era tão popular que até podia dar certo.


Aqui deixo o duo de Natália Correia e Amália Rodrígues, que versionou este poema do trovador galego do sêculo XII, Pero Meogo. Natália é a mãe e Amália a filha.




- Digades, filha, mha filha velida

porque tardastes na fontana fria.

(- Os amores ey.)


- Digades filha, mha filha louçana

porque tardaste na fria fontana.

(- Os amores ey.)


- Tardei mha madre na fontana fria

cervos do monte a augua volvian.

(- Os amores ey.)


- Tardei mha madre na fria fontana

cervos do monte volvian a augua.

(- Os amores ey.)


- Mentir, mha filha, mentir por amigo!

Nunca vi cervo que volvess' o rio.

(- Os amores ey.)


- Mentir, mha filha, mentir por amado!

Nunca vi cervo que volvess' o alto.

(- Os amores ey.)



(Pero Meogo, 1192)










Responde, filha, formosa filha:

porque tardaste na fonte fria

Amores eu tenho!


Filha, formosa filha, responde:

porque tardaste na fria fonte

Amores eu tenho!


- Tardei, minha mãe, na fonte fria,

Cervos do monte a água volviam.

Amores eu tenho!


Tardei, minha mãe, na fria fonte;

Volviam a água cervos do monte.

Amores eu tenho!


- Que escondes,filha, por teu amigo?

cervos do monte não volvem o rio.

Amores eu tenho!


Por teu amado, filha, que escondes?

o mar não volvem cervos do monte.

Amores eu tenho!


(Natália Correia, in A Defesa do Poeta)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cousas curiosas

Parece que no povo Ianomami há uma forte violência sobre as mulheres. O curioso é que elas consideram que se um homem não lhes bate é porque não gosta dela. É um comportamento que nos resulta chocante quando o vemos numa sociedade primitiva.
O certo é que a vulgaridade de muitas relações mede-se por este modo chocante de extorsão, simulação, chantagem e violência emocional que procura fixar a atenção continuamente sobre si.

Muitas pessoas chegam a se ofender se são tratadas bem, com educação e respeito, mantendo certas distâncias devidas à necessidade de não precipitar ou invadir a intimidade de alguém com um abuso de confiança.

É sobre esta base emocional que resulta fácil para muitas pessoas ceder boa parte da sua autonomia pessoal em favor de outros que lhes ofereçam essa estimação que realmente não necessitam, como no caso das mulheres Ianomani.

Realmente o nosso primitivismo é mais fácil vê-lo nas tribos do que aqui mas não significa que não exista.

(Se tu es uma mulher de quem são os bigodes?, diz o provérbio mongol)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ter razão e saber ter razão.


Todos os problemas dos seres humanos poderiam reduzir-se a esta frase:


"Não se trata só de que tenhas razão mas deves saber tê-la"


Mas a imensa maioria das pessoas conforma-se simplesmente com ter a razão sobre temas, ideias ou acções. Isto dá-lhes legitimidade para "lutar por elas", reivindicar, extorsionar, etc. sem saber como a razão deve ser realmente exposta e defendida.

Pode parecer trivial o que digo mas é uma constatação diária, em todos os níveis da vida. Por isso gosto de essa frase de um antigo sábio:

"O sufi não reivindica, conhece o segredo do significado"

Isto é no caso em que as pessoas têm razão, que não é o maioritario. Fica o caso em que nem têm razão nem sabem ter o que não têm.

E há um caso ainda por considerar: o das pessoas que não têm razão mas sabem tê-la e também não tê-la.

Realmente essas pessoas sabem.

Para ressumir diriamos que as nossas razões são tão próprias que carece de sentido expó-las e sempre temos aquele aforismo dos taoístas:

"Instrumento correcto com homem incorrecto resultado incorrecto mas instrumento incorrecto com homem correcto resultado correcto"


Mas quando compreenderá o homem incorrecto isto?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Família


Em 1930 o meu avô Antonio emigrou para Buenos Aires. Ele tinha toda a sua família paterna lá. Ficou órfão com cinco anos. O seu pai era um anarquista casado com uma piedosa mulher com a que teve três filhos. O meu bisavô ia e vinha de Buenos Aires. De cada ocasião que vinha nascia um filho. O do meio foi meu avô. Ele recordava como tinha ido com outros miúdos desfazer um mitim no que participava o seu próprio pai. O cura de Corcubião encarregara-se de lhes facilitar os apitos pertinentes.

O meu bisavô tinha uma tuberculose e encontrava-se com a sua mulher e a sua família. Ela insistiu para que fossem visitar um curandeiro famoso, o cura de Vilhastoso. Ele foi sem fé, por conformar-se à petição da mulher. O cura de Vilhastoso foi claro: se ele ficava uns meses tinha esperança de se recuperar mas se ia para Buenos Aires, morreria. Ele foi para Buenos Aires, onde se encontrava a sua mãe e os seus seis irmãos. E ali morrreu com 35 ou 36 anos oito meses mais tarde.

Agora passaram vinte anos e o meu avô está na Plaza de Mayo, recém chegado, junto a centos de emigrantes que por ali deambulam sem ofício nem benefício. O único contacto que tinha com a família era por cartas ocasionais, distanciadas por anos.

Uma mulher de mais de oitenta anos acerca-se a ele e pergunta-lhe se, por acaso, conhece a Antonio Lozano, de Corcubião.

O meu avô sorri e, suponho, emocionado da-lhe uma abraço.

- Abuela!

Ele dizia-me:

Los tranvías iban a una velocidad endiablada y ella, con 83 años, los agarraba al vuelo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um galego e outro.


Um dos meus avôs, Rafael, contou-me muitas vezes esta história que, como já referi noutra ocasião, poderia ser do Mullah Nasrudin.


Dous homens estão a rematar o almoço. Trata-se de um almoço de negócios: um é tratante de cavalos e outro de burros mas isto não é importante. O caso é que chega a hora da sobremesa e duas maçãs se encontram à espera de serem comidas. São vermelhas, carnosas, apetitosas.


O tempo passa mas as maçãs continuam sem serem apanhadas. A conversa deriva sobre temas quase esotéricos: os costumes dos burros do interior e as suas manias, a história da mula que quando lhe perguntaram que classe de animal era respondeu que o seu pai era um cavalo, e toda uma série de contos e pequenas histórias enovelados e sem fim.


As maçãs, solitárias e no meio da mesa, continuavam sem comer mas, de súbito, o galego alongou o braço e apanhou uma: era grandiosa, imensa e vermelha.


No prato ficava uma maçã formosa mas muitíssimo mais pequena. O companheiro indignou-se:


- Parece mentira. Não esperava isso de ti. Que educação recebeste?


- De que me falas?


- Como apanhas a maçã mais grande? Quando se viu semelhante cousa?


- E tu que farias?


- Evidentemente colheria a pequena.


- Pois aí está!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cabeças, cordeiros e mestres.


Hoje só duas pequenas meditações. Uma procede de uma dedicatória do meu querido Idries Shah. Ele tem um livro intitulado Contos dos derviches que diz assim:


"Aos meus mestres,
que tomaram o que foi dado
que deram o que não podia ser tomado"


Considero-a uma das melhores dedicatórias que li jamais.

A segunda história procede do profeta Muhammad, que repartia um cordeiro junto à sua filha Fátima. Ela numa certa altura reparou que o cordeiro estava a se acabar e disse-lhe:


- Não temos mais que a cabeça.


Muhammad respondeu:


- Temos tudo menos a cabeça.


(O aspirante a discípulo dirigiu-se ao mestre e foi o mestre quem pediu perdão)